Quilombolas de Mata Cavalo enfrentam insegurança fundiária e omissão do Estado
Fonte: Da Redação 20/11/2025 ás 15:02:37 1454 visualizações

Embora tenha sido reconhecida oficialmente há mais de duas décadas, a comunidade quilombola de Mata Cavalo, localizada em Nossa Senhora do Livramento (a 38 km de Cuiabá), ainda não possui a titulação definitiva de seu território. Em uma área de quase 14 mil hectares, onde vivem cerca de três mil moradores, decretos estagnados, disputas fundiárias e a ausência de políticas públicas fazem com que a memória ancestral sustente aquilo que o Estado ainda não garantiu. É nesse cenário de resistência contínua que as lideranças reforçam a importância de preservar saberes, defender a terra e reafirmar o orgulho de pertencer a um dos quilombos mais antigos e simbólicos de Mato Grosso.

Gonçalina Eva Almeida de Santana nasceu, cresceu e ainda mora na comunidade quilombola de Mata Cavalo. Ao , ela revela uma história que não cabe em documentos, prazos ou decretos. É uma história real, atravessada pela força de um povo que transformou resistência em continuidade e que, há mais de um século, mantém na terra os vínculos de pertencimento que sustentam sua existência.

O território, existente desde 1883 e reconhecido pelo Estado e pela União há mais de duas décadas, permanece sem titulação definitiva. A ausência de regularização impede o retorno de famílias, restringe políticas públicas essenciais e alimenta conflitos com ocupantes irregulares. “Temos decreto, temos reconhecimento, temos documentação. O que não temos é o território regularizado”, afirma Gonçalina. “Isso gera insegurança. Vendem o que não é deles, chegam pessoas estranhas. A gente se preocupa, porque não somos prioridade na regularização.”

Apesar do descaso do poder público, Mata Cavalo preserva algo que não pode ser retirado: a herança emocional, espiritual e prática deixada pelos antepassados. “A nossa história é a nossa maior relíquia. Saber de onde viemos, saber como conseguimos esse território. Mesmo sem dinheiro e sem saber ler ou escrever, nossos antepassados resistiram para que tivéssemos o que temos hoje.”

Essa herança se traduz em práticas cotidianas: o uso de ervas medicinais, o modo de plantar, a organização familiar, os rituais, as memórias orais e a relação com a terra. Em Mata Cavalo, tradição não é lembrança — é continuidade. São saberes que atravessam gerações e moldam o modo de existir da comunidade.

O afroturismo tem fortalecido esse vínculo, aproximando visitantes da vida quilombola sem transformar a cultura em espetáculo. A iniciativa gera renda, reforça o sentimento de pertencimento e dá visibilidade a formas de conhecimento que permanecem vivas. A agricultura familiar, o artesanato e os saberes tradicionais seguem sustentando famílias e criando caminhos para que os jovens permaneçam no território com dignidade. “O afroturismo nos ajuda a mostrar quem somos hoje, com nossos conhecimentos ancestrais. Isso fortalece e ajuda economicamente.”

A escola quilombola também desempenha um papel central nesse processo. É nela que crianças e jovens despertam saberes antes adormecidos, reencontram a própria história e assumem o orgulho de pertencer ao território. “A escola é a nossa oficina de fortalecimento”, diz Gonçalina. “Ela desperta potencialidades e revela talentos. Hoje, nossas crianças têm orgulho de ser quilombolas.”

Em um território onde o passado não se distancia e o futuro é uma construção coletiva, tradição e modernidade convivem em equilíbrio. “Mantemos nossos saberes ancestrais, mas estamos preparados para viver no mundo contemporâneo. Não transformamos nossa cultura em espetáculo. Ela é conhecimento, é contribuição do povo negro para a cultura brasileira.”

Para Gonçalina, o maior desafio continua sendo a regularização fundiária. Ainda assim, a liderança faz questão de reafirmar aquilo que nenhuma demora administrativa pode apagar: a dignidade, a memória e o orgulho de pertencer à Mata Cavalo. “Quando conhecemos nossas riquezas, nos tornamos mais fortes. Queremos continuar aqui com respeito, oportunidades e com tudo aquilo que herdamos dos nossos antepassados.”


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