De roupas brilhantes de seda e cetim, com tons coloridos e floreados, 25 dançarinos encantam há décadas moradores da cidade pantaneira de Poconé (100 km de Cuiabá) com a chamada dança dos mascarados.
A dança executada por eles é dividida em doze partes, cada uma com coreografia diferente da outra. Quem executa a música é a banda municipal de Poconé, com as melodias que misturam rasqueado e marchas antigas de Carnaval, que embalam as cerca de duas horas de apresentação.
Para manter a tradição, até hoje o grupo é formado só por homens. Na época acreditava-se que mulheres não tinham força física para aguentar as duas horas de dança intensa.
Embora hoje saibamos que isso não procede, o grupo decidiu manter a formação como sempre foi desde o surgimento, somente masculina. Na apresentação, doze homens se vestem de damas e doze de galãs, além do 25° integrante que é chamado de "marcante", ficando na baliza.
Ensaiado pelo professor João Benedito da Silva, de 64 anos, o grupo Mascarados de Poconé vem se apresentando por diversas cidades de Mato Grosso e encantando as plateias por onde passa. Dançarino desde os nove anos de idade e à frente do treinamento dos jovens desde 1997, João conta um pouco de sua relação com o grupo.
O professor também ensina um pouco sobre a história dos Mascarados, que até hoje permanece cheia de mistérios e não tem um registro oficial. “Não temos um registro de uma data da fundação do grupo. O que eu sei é que a manifestação é derivada de danças e rezas dos índios Beri-Poconé, que foram observadas e adaptadas por poconeanos e colonos portugueses”, explica.
A apresentação tinha cunho religioso e é apresentada até hoje nas tradicionais festas do Divino Espírito Santo e de São Benedito. Hoje em dia, porém, eles vão muito além desse nicho.
Os dançarinos se apresentam com máscaras, de onde deriva o nome do grupo. Com isso, eles não podem ser identificados pelo público.
As roupas e chapéus, ricos em detalhes, são feitos por costureiras locais e bordados à mão na Casa da Cultura do Município. “Antes os vestidos utilizados pelas damas tínhamos de emprestar de parentes como mãe, irmãs, madrinhas. Hoje temos costureira e quem borde as peças”, inicia João.
“As máscaras são feitas em Cuiabá. Elas são essenciais, pois a identificação de cada dançarino é secreta. Aqui temos quatro costureiras que estão sempre em atividade. E, depois de pronta a roupa, esta vem para o centro cultural, onde fazemos os desenhos e em cima deles fazemos os bordados com lantejoulas e miçangas, tudo bordado à mão com linha e agulha”, completa.
Outra particularidade é que as músicas não têm partitura, é tudo "de ouvido". A banda municipal acompanha o grupo em todas as suas apresentações e assim vai se mantendo por gerações uma das mais antigas manifestações folclóricas do Estado.
Valorização da cultura
Por muito tempo os Mascarados só se apresentavam em festas de santo, mas hoje em dia eles vão a diversos eventos com ou sem caráter religioso e em outros municípios.
Com isso, a cultura da região de Poconé é levada junto com o grupo em cada apresentação.
Sobre apoios públicos que o grupo recebe, João Benedito esclarece que todos os dançarinos participam de forma voluntária. “Temos apoio da Prefeitura para a folha de pagamento dos músicos da banda e para os servidores da Casa da Cultura que zelam, costuram e mantêm limpas as vestes do grupo. Os dançarinos são todos voluntários, desde os ensaios até se apresentarem pelo grupo”, afirma.
Com o objetivo de manter a tradição viva para as próximas gerações, já existe também o grupo de Mascarados Mirim, formado por garotos de seis a doze anos, que ensaiam e já fazem apresentações.
Indiretamente, o grupo acaba contribuindo também para dar novas oportunidades a jovens e adolescentes da periferia. Expostos à criminalidade e muitas vezes sem ter acesso a boas oportunidades, os jovens têm no grupo uma porta para novos caminhos, seja na área da dança, na cultural ou até mesmo por proporcionar uma socialização com um grupo.
João conta que já surgiu oportunidade até de se apresentar no exterior, mas que por falta de apoio, o grupo não viajou.
“Os Mascarados são uma dança única que só tem aqui, não há igual em nenhum outro lugar. Acho importante apresentar fora porque vamos levando a cultura da nossa cidade para outros lugares”, finaliza.


