Fogo no MT: incêndio atinge casa das onças no Pantanal em Poconé
Fonte: Da Redação 14/11/2023 ás 18:26:57 2758 visualizações

O Parque Estadual Encontro das Águas, localizado ao sul do Mato Grosso, entre os municípios de Barão de Melgaço e Poconé, completou uma semana em chamas nesta segunda-feira (13), segundo informações de pesquisadores do local e do Instituto SOS Pantanal.

Após um incêndio que começou no início do mês de outubro, a reserva voltou a pegar fogo no dia 6 de novembro e até a publicação desta reportagem não foi controlado. Estimativas da plataforma do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa) da UFRJ indicam que, no acumulado de focos do ano, 34% do parque foi queimado, totalizando 37,2 mil hectares.

Na média mensal, o total de área queimada em outubro (21.025 hectares) foi quase 5 vezes maior que a média histórica (4.520 hectares). É a pior crise do parque na série histórica, depois de 2020, quando a mesma região teve mais de 90% da área atingida pelo fogo.

De acordo com a veterinária do Projeto Jaguar Identification, Helena Aimée, havia cerca de 30 bombeiros espalhados na região do parque até a semana passada. Segundo a veterinária, a área de proteção não possui plano de manejo contra incêndios. Helena estuda o comportamento das onças-pintadas na região de Porto Jofre.

Local que abriga a maior densidade de onças-pintadas do mundo, o parque é cortado pela Transpantaneira e é lugar de uma rica diversidade de vida selvagem, ponto de encontro de turistas e pesquisadores do mundo todo. O Terra da Gente, durante uma expedição nesta região, encontrou onze onças.

"O governo estadual demorou para enviar pessoas para combater o fogo e mandou um número insuficiente, tanto que por isso eles pediram ajuda para o governo federal. Agora o combate aos incêndios é responsabilidade do governo federal e o estadual vai dar apoio. [...] Queimou tudo, queimou perto dos rios Caxiri, São Pedrinho, Três Irmãos, Cuiabá, lambeu o parque inteiro", conta Helena.

Animais novamente em perigo
Além dos dados, vídeos que circulam na internet mostram animais tentando escapar das chamas e da fumaça que vêm consumindo o parque. Gustavo Figueirôa, diretor de comunicação do Instituto SOS Pantanal, diz que um levantamento preciso do número de animais mortos só será possível após o controle dos incêndios.

Um dos registros mostra uma onça acuada, perto de uma área em chamas. Os pesquisadores também fotografaram uma série de animais mortos, dentre anfíbios, répteis, mamíferos e aves. Além das chamas, a fumaça é um fator que também ameaça a sobrevivência dos bichos.

"É um filme de terror, de fato, a quantidade de bicho que morre. Geralmente são mostrados os mamíferos, né? Mas quando você anda na floresta, a quantidade de répteis e pássaros que morre é enorme", conta o presidente do Instituto SOS Pantanal Alexandre Bossi."Os animais é que sofrem no meio disso tudo, eu trabalho com monitoramento de onças, a gente tem visto os indivíduos, mas eles estão com o comportamento alterado devido ao estresse. As ondas de calor pioram tudo e fomentam o fogo", completa Helena.

Gustavo está acompanhando os trabalhos de combate ao fogo. Segundo ele, a situação que começou no início de outubro ainda segue fora de controle.

"Foi uma sequência de fatores. [...] é um problema de gestão, principalmente de prevenção do estado, que não trabalhou com planos de prevenção de incêndio, somados a essas ondas de calor cada vez piores, é uma junção de fatores", declara Gustavo.

Já o presidente do SOS Pantanla, Alexandre Bossi, ressalta a importância de planos de manejos interestaduais, não só para o Parque Estadual Encontro das Águas, mas também para todo o Pantanal. Desse modo, as brigadas de incêndio do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul atuariam de forma conjunta em ações emergenciais no bioma.

"Ele é um parque estadual, esse fogo não foi controlado pelos bombeiros no Mato Grosso, eles não pediram ajuda para o Prevfogo [Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, de responsabilidade do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama)] e esse fogo pulou a fronteira e virou um problema para o Mato Grosso do Sul".

"Agora se a gente tivesse um plano para o bioma dos dois estados, isso possivelmente não teria acontecido", acrescenta. Como a previsão do tempo indica chuva só para o fim de semana na região, para Alexandre, a situação deve continuar como está ou pode ficar pior se nada for feito.

"O Pantanal é um bioma que vai sofrer incêndios recorrentes quando tiver seca e as secas vão ser mais frequentes por conta das mudanças climáticas, é um fato. Então o que os governos estaduais e federal devem fazer é montar um plano estratégico para o futuro", finaliza ele.

Enviar um comentário
Comentários
Mais notícias