POLÍTICA ▸ GRAMPOLÂNDIA

MP revela que ex-amante pressionava advogado por cargo e prestação de carro em Mato Grosso

A ameaça de que duas mulheres estariam tramando um atentado contra o ex-governador Pedro Taques (PSDB), em 2015 – fato utilizado para quebrar o sigilo telefônico das suspeitas -, “nunca existiu”. A avaliação é do Procurador-Geral de Justiça e chefe do Ministério Público de Mato Grosso (MPE-MT), José Antônio Borges Pereira, e consta de um aditamento de uma denúncia elaborada pelo órgão contra o ex-chefe da Casa Civil e primo do ex-governador, Paulo Taques.

De acordo com o aditamento da denúncia, assinada por José Antônio Borges no último dia 15 de julho, Paulo Taques temia consequências em sua vida pessoal em razão de estar sendo pressionado por Tatiane Sangalli Padilha, sua ex-amante. Ela estaria exigindo um cargo no Governo, além do pagamento da prestação de seu automóvel pelo ex-chefe da Casa Civil.

Mais tarde, descobriu-se que Sangalli também se relacionava com outras pessoas. A ex-amante começou a sofreu as interceptações telefônicas ilegais em outubro de 2014, antes mesmo do início da gestão Pedro Taques. “Apurou-se no presente caderno informativo que o acusado fora amante de Tatiane Sangalli Padilha de 2009 até início de 2015, quando assumiu o cargo de secretário chefe da Casa Civil. Consta ainda que durante a transição de governo, Tatiane perdeu o cargo de assistente de gabinete e, então, no início da gestão de Pedro Taques passou a cobrar do denunciado outro cargo, o que fora por ele negado, levando, portanto, ao término do relacionamento. Todavia, mesmo diante do fim do caso, Tatiane continuava procurando Paulo Taques cobrando o pagamento da parcela de um veículo Renault Duster, no valor de R$ 1 mil que o acusado havia se comprometido a arcar; aparecia em eventos oficiais; enfim, incomodava o então secretário da Casa Civil”, completou o procurador-geral de Justiça.

Na sequência, José Antônio Borges aponta que Paulo Taques mandou grampear a ex-amante, e também uma funcionária de seu gabinete, Caroline Mariano, amiga de Tatiane Sangalli, e que estaria repassando informações dos bastidores do Poder Executivo de Mato Grosso, em 2015, ao jornalista José Marcondes Muvuca – um conhecido crítico do ex-governador Pedro Taques. “O acusado, preocupado com o término de seu relacionamento, já que Tatiane estava magoada e poderia atingi-lo expondo sua intimidade e, ainda, desconfiado que Caroline vazava informações de seu gabinete para o jornalista Muvuca, cujas matérias prejudicavam a imagem do Governo, resolveu, então, monitorar os três”, diz trecho dos autos.

Com a justificativa de grampear o trio, Paulo Taques utilizou o fato de sua ex-amante também ser amiga de Kelly Arcanjo Ribeiro – filha do ex-bicheiro João Arcanjo Ribeiro, um conhecido desafeto do ex-governador Pedro Taques -, para dizer ao promotor de Justiça, e ex-secretário de Estado de Segurança Pública (SESP-MT), Mauro Zaque de Jesus, sobre a necessidade de monitorar os três suspeitos em razão de uma suposta “ameaça” a sua própria vida e também a do ex-Chefe do Poder Executivo.

A denúncia realizada a Mauro Zaque de Jesus, na avaliação de José Antônio Borges, foi “falsa”. “Valendo-se do cargo de poder e prestígio que ocupava, comunicou falsamente ao então Secretário de Segurança Pública Mauro Zaque de Jesus de que, com o Governador do Estado à época, corria risco de morte. Para comprovar suas alegações, o denunciado apresentou uma folha A4 contendo supostas conversas telefônicas interceptadas – fora do padrão costumeiramente utilizado pelos órgãos de investigação oficiais – denotando que duas mulheres tramariam algo contra si e o então Governador Pedro Taques”, diz a denúncia.

CRÍTICA A PJC

O Procurador-Geral de Justiça também fez duras críticas a duas delegadas da Polícia Judiciária Civil (PJC) - Alana Darlene e Alessandra Saturnino. As servidoras públicas foram procuradas pelo ex-chefe da Casa Civil, Paulo Taques, que lhe relatou a suposta ameaça ao ex-governador Pedro Taques.

De acordo com José Antônio Borges, a delegada Alessandra Saturnino “recusou de plano” praticar os grampos contra o jornalista José Marcondes Muvuca. Mas adicionou os números telefônicos de Tatiane Sangalli e Caroline Mariano – denominadas como “Dama Loira” e “Amiguinha”, respectivamente -, em investigação que estava em andamento no órgão.

As servidoras, entretanto, não explicaram ao juiz a origem e os motivos dos grampos contra as suspeitas, o que fez com que o Chefe do MPE-MT qualificasse a atitude como “desleal”. “Aqui é bom ressaltar que não foi esclarecido por Alana em sua representação encaminhada ao Poder Judiciário quem seriam, de fato, ‘Dama Loura’ e ‘Amiguinha’, e nem o real motivo de pleitear a interceptação de seus numerais. Em outras palavras, a delegada de Polícia Alana Darlene, com a aquiescência de sua colega Alessandra Saturnino, de forma desleal induziu a erro o Poder Judiciário e o Ministério Público”, criticou.

A denúncia aponta ainda que Tatiane e Caroline foram gravadas durante 15 dias, e que essas conversas originaram um outro procedimento no âmbito interno da Sesp-MT, denominada “operação Pequi”. “Com efeito, os áudios referentes a 'Dama Loura' e 'Amiguinha' foram destacados dos demais alvos da Operação Forti, dando início a uma outra operação que ficou circunscrita apenas ao âmbito interno da SESP, denominada ‘Operação Pequi’. Durante 15 dias, as conversas de Tatiane e Caroline foram ouvidas e, ao final, como era previamente sabido por Paulo Taques, nada foi apurado em relação as ameaças contra o ex-Governador e o então Chefe da Casa Civil”, relatou José Antônio Borges.

O procurador-geral de Justiça não teve dúvidas em deixar expresso na denúncia de que a suposta ameaça de morte contra o ex-governador Pedro Taques “nunca existiu”. Ele denunciou Paulo Taques por “quebrar segredo de Justiça” sem autorização judicial, além de imputar o crime a uma pessoa onde sabe-se que ela é inocente. "Isto demonstra que a suposta ameaça contra a vida do Chefe da Casa Civil e do Governador nunca existiu, não passando de uma “história cobertura” inventada pelo Acusado para monitorar, ilegalmente, sua ex-amante e sua secretária".

O esquema de interceptações telefônicas ilegais em Mato Grosso ganhou as manchetes dos meios de comunicação após a veiculação de duas reportagens do programa Fantástico, da Rede Globo, que foram ao ar em maio e julho de 2017. Jornalistas, médicos, advogados, políticos e até uma amante do ex-secretário da Casa Civil, Paulo Taques, sofreram interceptações telefônicas clandestinas que teriam sido feitas por policiais militares.

De acordo com as investigações a alta cúpula da gestão do ex-governador Pedro Taques, bem como oficiais de prestígio na PM – como coronéis e tenentes-coroneis -, estariam envolvidos na prática criminosa. Há a suspeita de que promotores e procuradores de Justiça, bem como juízes do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, também estariam envolvidos em escutas ilegais de modo a “viabilizar” investigações e ações judiciais.

Comentários