VARIEDADES ▸ LEMBRANÇA

Aquarela do Brasil chega aos 80 anos com cores esmaecidas por retratar país irreal de era ufanista

Ao compor Aquarela do Brasil em noite chuvosa de 1939, o compositor mineiro Ary Barroso (7 de novembro de 1903 – 9 de fevereiro de 1964) praticamente fundou o subgênero do samba que seria rotulado como samba-exaltação.

Posta na letra com a chancela oficial do governo ditatorial de Getúlio Vargas (1882 – 1954), presidente do Brasil na época, a dose farta de civismo com que Ary pintou a Aquarela faz com que o samba chegue com cores pálidas aos 80 anos – festejados neste mês de agosto de 2019, sobretudo na cidade natal do compositor, Ubá (MG), cuja prefeitura criou programação cultural com exposição, musical e outros eventos que celebram o ilustre filho da cidade mineira.

Tal esmaecimento não contamina a melodia exuberante de Ary, para sempre tão viva e majestosa que faz com que o samba ainda resista como um dos românticos cartões-postais do Brasil no mundo 80 anos após ter sido gravado pelo cantor Francisco Alves (1898 – 1952) em 18 de agosto de 1939.

Nesse sentido, Aquarela do Brasil somente é ombreada com a igualmente célebre Garota de Ipanema (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962), samba-símbolo da carioca Bossa Nova, standard de outra era musical, surgida em momento de prosperidade e modernidade nacional.

Se Aquarela do Brasil chega esmaecida aos 80 anos, é porque a letra envelheceu mal, inclusive porque o Brasil também vai mal. Essa letra podia fazer todo sentido em época de nacionalismo exacerbado como a Era Vargas.

Em 2019, soa fora de época, datada, sem vínculo com o Brasil polarizado e poluído em que até a bela natureza natural do país vem sendo destruída por crimes e maus-hábitos ambientais.

Tampouco o Brasil pode ser retratado hoje em dia como a "terra do samba e do pandeiro". O samba está vivo, mas abafado nos morros e no asfalto pelo som grave do tamborzão do funk do Rio de Janeiro. Som que já ressoa no resto de um Brasil que, no fim das contas, é mais do sertanejo do que do samba ou mesmo do funk.

Comentários