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10/11/2017 às 21:29:41 Enviar Imprimir
Líder religiosa, Doninha atraiu multidões e foi insurgente anti Getúlio Vargas
Houve certa vez em Mato Grosso uma mulher de apenas 29 anos, dada a ter visões com uma entidade espiritual (Santa Maria da Verdade) e afeita a curas, que desafiou as forças militares do embrião do Estado Novo do ditador Getúlio Vargas. Junto de seus seguidores, apoiou inadvertidamente a insurgência dos Constitucionalistas nos anos 30 e, logo após a derrota destes, à semelhança de um Antônio Conselheiro de saias (alcunha pela qual, aliás, foi apelidada por vários anos, em alusão ao episódio ocorrido em Canudos, Bahia, 30 anos antes), não arredou pé e ficou firme contra adversidades tais como uma prisão que durou nada menos que três meses.

Tempo no qual era constantemente espancada e torturada, mesmo estando presa na companhia de seu filho de meros 11 meses de idade. Para trás ficaram outros dois filhos mais velhos, Manoel e Lourenço, sob os cuidados de sua amiga, Nhacandí.

Tem toda cara de ficção, mas aconteceu de verdade. Entre 1932 e 1934, na cidade de Poconé (município de 236 anos localizado cerca de 100 quilômetros a leste de Cuiabá), Laurinda Lacerda Cintra, vulgo Doninha, destacava-se na vida político-social da porta de entrada do Pantanal devido à sua liderança comunitária e religiosa.

Documentos da época — como acórdãos do julgamento dela, guardados no Tribunal de Justiça de Mato Grosso e jornais — dão conta que Doninha operava curas milagrosas, fazia previsões futurísticas e tinha posição definida contra os rumos determinados à República dos Estados Unidos do Brasil pelo poder central (à época, localizado no Rio de Janeiro), como o não-respeito ao resultado de eleições e à colocação de interventores nomeados após a deposição dos presidentes de província (cargos que anos mais tarde seriam equivalentes aos dos governadores atuais).

Em Mato Grosso, o posto fora dado por Vargas a Antonio Mena Gonçalves e depois a Leônidas Antero de Barros. Em Poconé, o prefeito (e algoz de Doninha) era Antonio Avelino Correa da Costa.

As nomeações feitas pelo presidente suicida visavam frear movimentos constitucionalistas e potenciais levantes, como assim era enxergado o arraial do Tanque Novo, episódio até hoje amalgamado à trajetória de Doninha.

Na terra pertencente à família Lacerda Cintra desde os avós dela, Getúlio Vargas sempre sofreu derrotas. Primeiro nas urnas, quando a localidade em massa votou, em 1930, contra o candidato indicado pelo presidente de Minas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, para ajudar a eleger Júlio Prestes (o vice era João Pessoa, o mesmo que dá nome à capital da Paraíba, assassinado no mesmo ano).

Como se sabe, a essa derrota (e à morte de João Pessoa) sobreveio o golpe militar fundador da Era Vargas. Instalado seu chamado Governo Provisório (que deveria durar quatro anos), em ato contínuo são fechados o Congresso e todas as câmaras municipais do Brasil.

E aqui cabe aludir não aos traços comuns entre Doninha e Antonio Conselheiro (ambos nasceram em março, o Peregrino no dia 13; Doninha no dia 19, ambos eram vistos como milagreiros e líderes religiosos, além de políticos), mas às suas dessemelhanças. Enquanto o primeiro preferia manter um dos mais antigos símbolos de opressão conhecidos no ocidente, a monarquia, e tinha posicionamento abertamente político, Doninha gostava de liberdade e ansiava por democracia. Ao menos a que a permitisse seguir com o que acreditava ser sua missão espiritual.

Além disso, se o primeiro morreu no cerco e combate à sua vila, a segunda ficou firme à parte as pressões e a destruição total do Tanque Novo pelas tropas militares que contra ela sublevaram e por fim a prenderam, em novembro de 1933, mas viveu até os 70 anos para contar sua história e seguir curando e atraindo multidões até a fazenda onde viveu a maior parte de sua vida durante muitos e muitos anos.

Se, como notou Euclides da Cunha, “a história é ali mais teatral, porém menos eloquente”, referindo-se ao sertão nordestino especificamente e à Bahia em particular, e exatamente por isso “surgem heróis, mas a estatura avulta-lhes, maior, pelo contraste com o meio; belas páginas vibrantes mas truncadas, sem objetivo certo, em que colaboram, de todo desquitadas entre si, as três raças formadoras” (n’Os Sertões), talvez para destruncar essa parte da história de Mato Grosso é que o jornalista e vereador de Poconé Walney de Souza Rosa (PV) decidiu escrever o livro A Fé e O Fuzil.

A obra narra vários causos envolvendo os aliados políticos e seguidores de Doninha do Caité (outro nome pelo qual era conhecida) e boa parte de suas versões e interpretações. Tem, ainda, entrevistas com filhos de Doninha, além de trazer transcrições de coisas como o acórdão do julgamento ocorrido em 17 de agosto de 1934, hoje guardado no TJMT.

Parecer esse ocorrido meses após a prisão da líder comunitária pantaneira, cuja decisão final narra que esses eventos se deram porque ela “vinha fascinando a credulidade; inculcando curas de males curáveis e incuráveis; dando penitências; conseguindo proselitismo e angariando, em pouco tempo, grande numero de crentes, a ponto de sua tosca morada de então se transformar num núcleo de habitações onde estacionavam centenas de pessoas, inúmeras das quais submetiam-se a ridículos tratamentos e penitências”.

Mas incomodava mesmo era o número de pessoas cada vez maior a serem atraíadas pela conexão entre Doninha e Santa Maria da Verdade.

Pelas imediações do arraial do Tanque Novo, segundo jornais mato-grossenses da época, circulavam até 1,2 mil pessoas/dia, sendo que pelo menos 200 entre essas mantinham residência fixa por ali, sobrevivendo de pequenas lavouras.

E aí há como se fazer paralelos de semelhança entre o ocorrido em Canudos com o que desenrolou-se em Poconé, ainda que um estudo acadêmico já publicado desfaça a ideia por meio de termos de pesquisa historiográfica. Na tese Tanque Novo: a Dimensão Política de Um Movimento Religioso, a historiadora Maria de Fátima Gomes Costa procura distanciar os dois eventos ao lembrar que Doninha e seus seguidores não esperavam a vinda de um messias, não utilizavam roupas e expressões vocabulares próprias e também não mantinham, na interpretação dela, um desejo de rompimento com a ordem vigente, como buscava Antonio Conselheiro ao insurgir-se contra o estabelecimento da república e optar por um impossível retorno do imperador ou a formação de uma nova sociedade.

À parte tudo isso, para o vereador-escritor Walney, o movimento de Doninha era sumamente religioso, mas ela declaradamente participava das ações políticas por meio inclusive de um partido constitucionalista. E aqui, enquanto em pormenores cada um estudioso defende sua tese, cai muito bem outro trecho de Euclides da Cunha em seu livro-reportagem-clássico-da literatura em língua portuguesa, Os Sertões:



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