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PMs alvos de operação já receberam homenagens de Flávio Bolsonaro

Dois PMs alvos da operação desta terça-feira (22) já receberam homenagens do senador eleito Flávio Bolsonaro. A mãe e a mulher de um deles trabalharam no gabinete do parlamentar.

Major da polícia e suspeito de ser o chefe de uma milícia. Ronald Paulo Alves Pereira também é investigado acusado de participar de uma chacina. Em dezembro de 2003, quatro jovens que saíam de uma casa de shows, na Baixada Fluminense, desapareceram. Três dias depois, foram encontrados mortos com tiros de fuzil.

Quatro policiais militares já foram condenados pelo crime. O major Ronald é o único réu desse processo que ainda não foi julgado. O julgamento está marcado para abril.

Três meses depois da chacina, já como investigado, em março de 2004, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro aprovou uma moção de louvor ao major na Assembleia Legislativa do Rio. Ronald foi homenageado pelos” importantes serviços prestados ao estado do Rio de Janeiro”. O deputado usou como justificativa uma operação policial num conjunto habitacional no início daquele ano.

Nesta terça-feira ele foi preso apontado como um dos principais integrantes da milícia da Muzema, na Zona Oeste do Rio.

Um ex-policial apontado como chefe de milícia, e que está foragido, também foi homenageado por Flávio Bolsonaro. A mãe e a mulher do criminoso foram contratadas pelo gabinete de Flávio, quando ele era deputado estadual.

Assembleia Legislativa do Rio, outubro de 2003. Flávio Bolsonaro propõe e faz uma homenagem ao então tenente da PM Adriano Magalhães da Nóbrega. Na moção de louvor, Flávio escreveu que “o policial militar desenvolvia sua função com dedicação e brilhantismo, desempenhando com absoluta presteza e excepcional comportamento nas suas atividades”.

Em 2005 Adriano foi homenageado outra vez na Alerj. Flávio Bolsonaro aprovou que ele recebesse a maior honraria do estado: a Medalha Tiradentes.

Em 2007, o gabinete de Flávio contratou a mulher de Adriano como assessora parlamentar, Daniele Mendonça da Costa da Nóbrega.


Naquele mesmo ano, o então deputado fez um discurso defendendo a atuação das milícias. O discurso está registrado na Alerj. Flávio diz que “a milícia nada mais é do que um conjunto de policiais, militares ou não, regidos por uma certa hierarquia e disciplina, buscando, sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos”.

Flávio Bolsonaro afirma que há uma série de benefícios, e que ele mesmo gostaria de pagar R$ 20, R$ 30, R$ 40 para não ter o carro furtado na porta de casa, para não correr o risco de ver o filho de um amigo ir para o tráfico, ver um filho empurrado para as drogas."

Adriano Magalhães da Nóbrega respondeu a inquéritos por ligação com a contravenção, extorsão, envolvimento com a máfia de caça-níqueis e, em 2014, foi expulso da polícia. Em 2016 Flávio Bolsonaro contratou também a mãe de Adriano como assessora parlamentar, Raimunda Veras Magalhães.

A mãe e a mulher de Adriano ficaram no gabinete até novembro de 2018. Na última folha de pagamento disponível no site da Alerj, as duas tinham um salário de R$ 2.500. Em outubro, o salário delas aparece com um valor maior: R$ 5.100.

O Coaf aponta que Raimunda depositou R$ 4.600 na conta do ex-assessor de Flávio Bolsonaro Fabrício Queiroz. O relatório revela que Fabrício teve movimentação atípica de R$ 1,2 milhão no período de um ano.

Flávio Bolsonaro divulgou uma nota nesta terça-feira. Disse que continua a ser vítima de uma campanha difamatória com objetivo de atingir o governo de Jair Bolsonaro.

Afirmou que a funcionária Raimunda Veras Magalhães, que aparece no relatório do Coaf, foi contratada por indicação do ex-assessor Fabrício Queiroz, que supervisionava trabalho dela, e que não pode ser responsabilizado por atos que desconhece, só agora revelados com informações do Coaf.


O senador eleito disse ainda que tem sido enfático para que tudo seja apurado e os responsáveis sejam julgados na forma da lei.

Sobre as homenagens prestadas a militares, Flávio Bolsonaro disse que sempre atuou na defesa de agentes de segurança pública e já concedeu centenas de outras homenagens e declarou: “Aqueles que cometem erros devem responder por seus atos”.

A defesa de Fabrício também divulgou uma nota confirmando o que disse o senador eleito. O ex-assessor afirma que conheceu Adriano na época em que trabalharam juntos num batalhão da PM; que ele chegou a sugerir a contratação do próprio Adriano para o gabinete de Flávio, e que foi ele; Fabrício, que solicitou a nomeação da mulher e da mãe do ex-policial porque se solidarizou com a família que passava dificuldade porque Adriano estava preso na época.

Escritura

O Jornal Nacional mostrou na segunda-feira (21) a escritura de uma transação imobiliária do senador eleito Flávio Bolsonaro.

O documento registra que Flávio recebeu R$ 550 mil a título de sinal e princípio de pagamento no dia 24 de março de 2017. Segundo especialistas ouvidos pelo Jornal Nacional, a expressão sinal e princípio de pagamento é o termo técnico usado em escrituras para designar aquilo que os leigos chamam normalmente apenas de sinal, numa transação imobiliária.

Numa mensagem publicada nesta terça em redes sociais, Flávio Bolsonaro dividiu essa expressão, sinal e princípio de pagamento, como se não fosse uma coisa só. Ele disse que recebeu o sinal via transferências bancárias, cheques e em espécie e destacou: “com princípio de pagamento em 24 de março de 2017”.

Segundo Flávio, isso significa que, à medida que os pagamentos eram feitos em espécie, ele depositava o dinheiro na conta.

Mas os especialistas em escrituras imobiliárias ouvidos pelo Jornal Nacional afirmaram que não se trata disso. Segundo eles, o registro, na escritura, do recebimento de R$ 550 mil a título de sinal e princípio de pagamento, em 24 de março de 2017, significa que o pagamento foi integralmente efetivado naquela data ou até aquela data.


Ainda na mensagem publicada na internet, o senador eleito Flávio Bolsonaro afirmou que depositou os valores num caixa eletrônico, de R$ 2 mil em R$ 2 mil, em envelopes, para não enfrentar fila e esperar o caixa conferir o dinheiro na frente de várias pessoas na agência bancária.

A defesa técnica de Fabrício Queiroz declarou que repudia veementemente qualquer tentativa espúria de vincular o nome dele à milícia; que dados sigilosos foram obtidos de forma ilegal; e que a divulgação na imprensa constitui violação aos direitos básicos do cidadão.

O JN não conseguiu contato com os outros citados na reportagem.

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